Processo de Fabrico do Couro

Caracteristicamente, o processo de curtimenta é dividido em três fases principais:

RIBEIRA e CURTUME – preparação por processos químicos e mecânicos da fase de curtimenta a que se segue a curtimenta propriamente dita e que origina, quando utilizado o crómio, um produto de cor azulada, usualmente designado por wet blue;

RECURTUME – regularização mecânica da espessura, neutralização e recurtume, tingimento, engorduramento, secagem, amaciamento;

ACABAMENTO – preparação final, essencialmente mecânica, que visa conferir as características pretendidas de aspecto, elasticidade, toque e macieza;

Os animais durante a sua vida sofrem diversas doenças, como qualquer ser de estrutura biológica, muitas das quais têm influência na estrutura da pele. Dos defeitos que aparecem ao curtidor, os mais comuns são a carraça e o verme. Um outro tipo de defeitos são os causados pelo clima e pelo meio onde o animal é criado, nomeadamente estruturas de pele mais ou menos abertas, ou mais ou menos compactas; a alimentação também incide sobre o falado anteriormente. O meio onde o animal é criado aporta defeitos do género de marcas de fogo, arranhões de arame farpado e outros. A idade do animal, o seu sexo e a sua raça, também nos dão estruturas de pele diferentes; por tudo isto as peles, resíduo da indústria de carnes e matéria prima da indústria de curtumes, devem ser previamente seleccionadas.

Com um pouco mais de detalhe descrevem-se de seguida os procedimentos mais importantes:

  • Selecção, ou Escolha
  • Remolho
  • Pelame e Caleiro (Plomo)
  • Descarna
  • Serragem ou divisão
  • Desencalagem e lixo (ou purga)
  • Desengorduramento
  • Piquel ou piquelagem
  • Curtimenta
  • Escorrer, Dividir e Seleccionar
  • Rebaixar
  • Neutralização e Recurtume
  • Tingimento
  • Engorduramento
  • Repouso, Escorrer e Estirar
  • Secagem
  • Amaciar ( Abrandar ), Pregar e Desgarrar
  • Acamurçar
  • Acabamento
  • Selecção, Medição e Empacotamento

Selecção, ou Escolha: Normalmente na fase após esfola e conservação por tempo limitado, os defeitos de flor são difíceis de avaliar, mas para evitar muitos defeitos de produção, as peles devem ser seleccionadas nesta fase. Essa selecção pode ser feita segundo vários critérios. Nas peles bovinas pode ser por pesos ( tamanho / idade ) animal novo – vitelas ou novilhos, animais de peso intermédio – machos e fêmeas, e animais pesados – vacas e bois ou touros, segundo a cor do pelo ( pelagens: taurinas e amarelas ), e sexo.
Nas peles de cabra e ovelha os critérios de selecção poderão ser os mesmos apesar de existirem outros factores, como são a lã e a gordura natural desses animais , assim como este tipo de pele ter outras aplicações. Após a selecção as peles entram em produção. O tipo de pele que cada fábrica utiliza tem a ver com o produto final pretendido, a comercializar.

Remolho: Esta fase da fabricação tem como objectivo principal devolver à pele o aspecto e humidade, o mais parecidos possível ao pós esfola, o qual se perdeu durante os processos de conservação por tempo limitado. Nesta fase são utilizadas grandes quantidades de água, assim como produtos humectantes, bactericidas e fungicidas.

Pelame e Caleiro (Plomo):   Nem todas as peles passam por esta operação, nomeadamente as peles que são para ser trabalhadas com pêlo ( peles de abafo e de tapeçaria ). Esta operação tem como objectivo eliminar o pelo ou a lã e abrir a estrutura fibrosa da pele.
Existe uma outra operação que se aplica nas peles em que se pretenda aproveitar a lã, que poderemos considerar intermédia, chamada “oleado”, que consiste em aplicar produtos na carne das peles com o mesmo objectivo de pelame, mas que não implica a eliminação do caleiro. Os produtos utilizados nesta fase são: produtos depilantes, tensioactivos desengordurantes e cal.

Descarna: Processo mecânico, feito na máquina de descarnar, que tem por objectivo eliminar o excesso de carnes e gorduras que a pele contem ( tecido subcutâneo ) os quais dificultariam as operações seguintes.

Serragem ou divisão: Processo mecânico, feito na máquina de serrar ou de dividir, que tem por objectivo igualizar minimamente a pele em espessura, a qual deve ser adaptada ao fim pretendido, tendo como subproduto o crute, o qual nesta fase será crute em tripa.
Esta operação pode ser feita após curtimenta ao crómio, dando nesse caso como subproduto o crute em azul ( ao crómio ). Existem aspectos técnicos, de qualidade, de rendimento e ecológicos que podem fazer com que se opte em fazer esta operação neste momento ou após a curtimenta.

Desencalagem e lixo (ou purga): Estas operaçôes têm como finalidade eliminar o excesso de cal (desencalagem), remover os restos de raizes de cabelo e epiderme e abrir a estrutura da pele (lixo ou purga).
Para tal utilizam-se produtos neutralizantes ácidos, chamados desencalantes e enzimas para o chamado lixo.

Desengorduramento: Alguns tipos de pele, como as de ovinos e de porcinos, contêm grandes quantidades de gordura natural, que causaria graves problemas, pelo que devem ser submetidas a um tratamento especial para eliminar esse excesso de gordura, usando-se para isso produtos tensioactivos específicos, chamados desengordurantes.

Piquel ou piquelagem: As peles são tratadas com ácidos, preparando-as para a curtimenta. Utiliza-se sal para evitar e controlar os inchamentos da pele.
Os ácidos mais usais são o sulfúrico e o fórmico, por serem mais económicos, ainda que esta operação se possa efectuar com qualquer tipo de ácido, mas nesse caso já se procuram aspectos técnicos.

Curtimenta: Tem como finalidade estabilizar a fibra da pele, evitando a sua putrefacção.
Existem diversos tipos de agentes curtientes e várias formas de curtimenta, dependendo sempre do produto que se utiliza e a forma, assim como do artigo final pretendido. As curtimentas mais usuais, neste momento, são a curtimenta ao crómio e a curtimenta a vegetal. As operações anteriores, tanto para uma como para a outra são idênticas, diferenciando-se em pequenos pormenores de aspecto técnico.
A curtimenta ao crómio é utilizada praticamente para todos os tipos de artigos, excepto na produção de sola e de vaquetas, nos quais a curtimenta vegetal é insubstituível. Na curtimenta ao crómio utilizam-se sais básicos de crómio e produtos chamados basificantes, como fixadores do crómio.
Na curtimenta a vegetal utilizam-se diversos tipos de extractos de origem vegetal, sendo os mais conhecidos o de Mimosa, o de Castanheiro e o de Quebracho. A fixação dos extractos vegetais é feita por aumento de temperatura e com tempo, por isso mesmo esta curtimenta é mais demorada. Utilizam-se por vezes produtos especiais, chamados pré-curtientes, como acelaradores do processo.
Ambas as curtimentas podem ser complementadas com outros produtos, tais como gorduras, resinas, emascarantes e outros, com objectivos técnicos específicos.
Existem outros produtos curtientes, mas devido às suas características somente são utilizados como complemento destas duas curtimentas.
Como nos últimos anos tem aumentado a preocupação pelos problemas ecológicos, hoje estão a ser desenvolvidas curtimentas alternativas ao crómio, baseadas noutros minerais.
Após a curtimenta ter sido efectuada, as peles repousam e são submetidas a nova selecção.

Escorrer, Dividir e Seleccionar: Antes de serem seleccionadas, as peles devem ser escorridas, retirando o excesso de água, para mais fácil manuseamento e para que a operação de divisão seja mais facilmente executada e de forma mais igualizada.
A divisão só é efectuada nesta fase, caso não tenha sido feito em tripa, após o pelame e caleiro. Na curtimenta vegetal, a operação de divisão é sempre efectuada em tripa.
A selecção das peles é realizada normalmente após o escorrido, tendo em conta a qualidade da flor, o tamanho e a espessura pretendidos posteriormente, a qual vai incidir na operação de divisão.

Rebaixar: Como a operação de divisão não regulariza a espessura da pele de uma forma completamente eficaz, nesta operação igualiza-se a espessura da pele, sendo esta rebaixada à espessura que realmente pretendemos para trabalhar e que equivale praticamente à espessura final da pele.
Por norma, nesta fase já está definido o artigo final que se pretende, de que vão depender as operações posteriores.
Na indústria de curtumes, as espessuras da pele normalmente estão compreendidas entre 0,8 e 2,5 mm. Espessuras mais baixas que 0,8 mm somente são utilizadas para encadernação ou outros fins muito particulares, enquanto que espessuras superiores a 2,5 mm somente para sola e similares, no caso da curtimenta vegetal, ou então para fins especiais no caso da curtimenta a crómio.
Peles para vestuário e forros têm espessuras baixas, para calçado de senhora e criança as espessuras são médias baixas ( 1,2 a 1,6 mm ) e para calçado de homem e calçado desportivo, as espessuras são médias altas ( 1,8 a 2,3 mm ).

Neutralização e Recurtume: A neutralização tem como objectivo eliminar a acidez da pele, enquanto que o recurtume tem como objectivo modificar a característica da pele dada pela curtimenta e dependendo do artigo a fabricar.
Estes processos podem ser muito elaborados ou não, dependendo de vários factores, tais como a origem da pele, tipo de pele e qualidade desta, da espessura de trabalho, do toque e macieza pretendidos, da compacidade desejada, se o tingimento é para ser vazado ou não (vazado = corte da espessura da pele totalmente atravessado), etc.
Na neutralização os produtos que se usam são os chamados neutralizantes, existindo nesta gama de produtos muitos tipos que são sempre usados com fins técnicos muito específicos, mas os mais usados são sais, por serem os mais baratos e entre eles o bicarbonato de sódio e o formiato de sódio.
No recurtume podem ser utilizados produtos muito diversos, com finalidades técnicas muito específicas, sendo os mais usados, os extractos vegetais, taninos sintéticos, resinas diversas, aldeídos, sais de alumínio, etc.

Tingimento: O objectivo principal é dar cor à pele, utilizando para tal produtos chamados corantes. Esta operação pode ser superficial ou vazada, dependendo do artigo pretendido e da exigência do cliente.
No caso dos tingimentos vazados, a quantidade de corantes a utilizar é mais elevada, podendo nalguns casos ser o triplo da quantidade de um tingimento superficial. Por norma as cores escuras, assim como as mais intensas e vazadas, requerem uma maior quantidade de corante.
Para intensificar as cores, por vezes utiliza-se a chamada remontagem, que é na realidade um re-tingimento, ou seja, faz-se o tingimento por duas fases.
Os corantes para se fixarem à pele necessitam de uma adição de ácido, sendo normalmente utilizado o ácido fórmico devido às suas características químicas.
As cores, como é lógico, variam consoante as exigências da moda em cada momento.

Engorduramento: Esta operação visa a incorporação de substâncias gordas na pele, (as quais são diferentes da gordura natural da pele), lubrificando a flor e a estrutura interna da pele, para que a pele ao secar não fique dura, dando maleabilidade e flexibilidade, assim como um toque determinado, ao mesmo tempo que lhe confere resistências mecânicas (ao rasgo, à tracção e à rotura, etc.).
Os produtos utilizados são as chamadas gorduras e óleos, que podem ser de origem animal, vegetal, mineral, ou sintéticas e que existem no mercado puras ou em misturas destes diferentes tipos.
As quantidades utilizadas dependem muito do artigo a obter, assim como das operações anteriores, do tipo de pele, da sua espessura e das gorduras utilizadas.
Por norma, estas gorduras necessitam de ser fixadas à pele, o que é feito com adição de ácidos, geralmente o ácido fórmico.

Repouso, Escorrer e Estirar: Terminadas as operações no fulão, a que vulgarmente se chama a fase húmida, as peles devem repousar empilhadas algumas horas, o que pode ser feito em cavalete, ou em paletes.
Esse repouso visa essencialmente aumentar a concentração de produtos na pele, por escorrimento natural da água em excesso, melhorando desta forma a fixação dos produtos. Este repouso é fundamental para uma boa qualidade da pele. As operações de escorrer e de estirar são realizadas numa máquina que se chama de escorrer e estirar, ou então as duas operações podem ser feitas em separado, em máquinas específicas para o efeito.
O que se pretende é retirar o excesso de água à pele, alisando-a também do lado de flor, preparando-a assim para a secagem.

Secagem: Esta operação serve, como o nome indica, para secar a pele preparando-a para a chamada fase seca, onde são levados a cabo os acabamentos.
Hoje em dia, na maioria dos casos, inicia-se esta operação com uma pré-secagem em vazio, numa máquina chamada secador a vazio, ou vácuo, que por meio de temperatura e efeito de vácuo, se retira à pele a maior quantidade de água que esta contem, após o que se segue a secagem aérea, na qual as peles são penduradas em varas fixas ou móveis, deixando-as terminar de secar.
Por vezes para acelarar este processo, as peles são introduzidas em túneis de secagem, que por meio de ventilação e calor, se acelera o processo de secagem.
Existem outros tipos de secagem em máquinas específicas. Em curtimenta vegetal, a secagem deve ser muito controlada devido às características desse tipo de curtimenta, nunca devendo ser utilizada a secagem por vácuo, devido às suas condicionantes técnicas, sendo a principal a temperatura de contracção.

Amaciar ( Abrandar ), Pregar e Desgarrar: Estas operações são feitas após a pele seca e têm como objectivo principal preparar a pele para o acabamento.
Amaciar consiste em fazer passar a pele por uma máquina apropriada, chamada máquina de amaciar e vulgarmente denominada por “pam-pam”, para dar à pele um tacto mais maleável já que após a secagem a pele fica rígida.
Pregar consiste em levar as peles a uma máquina com o mesmo nome, a qual tem quadros perfurados nos quais as peles são esticadas, seguras com pinças adequadas.
Hoje em dia, todas as peles com espessuras superiores a 1,5 mm não são pregadas, excepto nalguns casos de artigos muito particulares. Peles de espessura inferior a 1,5 mm por vezes também não são pregadas, sobretudo se forem destinadas a calçado. A operação de pregar dá mais rendimento em superfície, já que as peles são esticadas, mas prejudica fortemente a pele no que diz respeito a tacto e quebre de flor, pelo que esta operação é só para artigos específicos.
Desgarrar ou aparar, consiste em recortar as peles com tesoura, manual ou eléctrica, retirando as pontas à pele, restos de carne, etc. Com esta operação são eliminadas todas as partes desnecessárias à pele, que iriam consumir produtos sem que estas partes fossem depois aproveitadas, assim como poderiam prejudicar a fase de acabamentos, já que estas partes poderiam enrolar as peles nos trabalhos mecânicos.
Normalmente e dependendo do critério do processo de trabalho, a pele é sujeita à operação de desgarro três vezes : a primeira, após a operação de rebaixar, com os mesmos objectivos acima descritos; a segunda, após a operação de amaciar( acima descrito ) e a terceira, quando as peles já estão prontas, com o único fim de melhorar a apresentação das peles ao cliente.

Acamurçar: Operação em que as peles são passadas por uma máquina com o mesmo nome, a qual possui um rolo com papel de lixa, sendo retirada a camada superficial da flor da pele.
Os artigos que sofrem esta operação mecânica são : os nubucks ( ou nobucks ), camurças, peles para corrigir e polidos.
Para melhorar o aspecto / qualidade final da pele, muitas empresas passam do lado de carne todas as peles da sua produção.

Acabamento: Após as operações anteriores, a pele entra na fase propriamente dita de acabamento. Neste momento os lotes, ou partidas, já vêm com um fim conhecido, ao qual se chama “artigo”. Os artigos mais usuais são : Semi-anilina, anilina, corrigidos, nubuck, pull-up, forro, napas, estofos, vestuário, etc. Todos estes artigos têm formas de acabamento diferente e específicas, apesar de cada artigo ter diversas variantes parecidas.
Por norma, o acabamento inicia-se com um pré-fundo, ou com um fundo, seguindo-se diversas capas intermédias e por fim um top final. Entre estas aplicações, a pele é levada diversas vezes a trabalhos mecânicos, principalmente chapas ou rolos quentes que lhe conferem lisura, assim como fixam as sucessivas camadas.
O top final tem como finalidade a fixação de todo o sistema, onde se podem incorporar diversos tactos e aspectos de maior ou menor brilho, que dá a característica específica do artigo à pele.
As aplicações dos acabamentos são feitas em máquinas próprias para o efeito, sendo as mais utilizadas as de pistolar e as de rolos, sendo normalmente máquinas contínuas.
Nas soluções de acabamentos utilizam-se diversos produtos, nomeadamente ceras, óleos, fillers, resinas de vários tipos, caseínas, produtos modificadores de tacto, emulsões fixadoras, pigmentos, etc, que podem ser transportadas por meio aquoso, ou por meio solvente, consoante os casos.

Selecção, Medição e Empacotamento: Após as peles acabadas, devem ser seleccionadas, o que é feito consoante o critério de cada empresa, estabelecendo-se escolhas de qualidade para cada tipo de artigo, consoante este tenha mais ou menos qualidade / defeitos.
Na indústria de curtumes, a comercialização das peles é feita em área quadrada ( pé quadrado, ou em decímetro quadrado ) e em alguns artigos específicos ao peso, sendo a unidade utilizada o quilograma.
Utiliza-se para este fim a máquina de medir, que pode ser manual, eléctrica ou electrónica.
O empacotamento é a fase final, em que as peles são agrupadas em pacotes e atadas, para mais fácil manuseamento e comercialização.

Fonte: Centro Tecnológico das Indústrias do Couro

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